Fim da festa (*)


Sem teu abraço
rendo-me às armadilhas.
Esboço cansaço
e me desfaço.
Ando sem rumo
fugindo das guerrilhas.
Falta-me insumo
e me dessarumo.
Sem teu sorriso
não tenho outras gargalhadas.
E assim sem aviso
perdi o meu riso.
Careço de afagos
mas tenho as portas fechadas.
E o pior dos estragos
é afundar em tragos.
Não posso caminhar
sem me firmar nos teus pés.
E se penso em parar
onde devo aportar?
Porque fui permitir
teus dedos nos meus cafunés?
Hoje vou me abstrair
e te usar de souvenir.
Se nada mais resta
findou-se a nossa novela
é o fim da festa.

(*) Márcia Fernanda Peçanha Martins

Conversa (*)


Carrego uma pressa
de não chegar
e assim adio o partir
Descumpro a promessa
de te deixar
quando te vejo surgir
Assim segue a conversa
e eu no lugar
onde volto a me iludir
com teu respirar
à flor da pele


(*) márcia fernanda peçanha martins

Saudade do meu irmão, Dedé, Dédi ou Luli (flores para você)


Tudo é saudade (*)

Tudo que falta é saudade.
A dor é sempre forte.
E o que abandona é saudade.
Ainda que nada importe.
Tudo que arde é saudade.
Independente do corte.
O que desespera é saudade.
Sem carimbo no passaporte.
Tudo que dói é saudade.
Mesmo que eu não suporte.
E a tua ausência é saudade,
Falta de sorte, de norte,
Meu encontro com a morte

(*) Márcia Fernanda Peçanha Martins

Lançamento de livro na Feira do Livro


Gente, chique no último

POETAS LANÇAM 2º VOLUME
DE ANTOLOGIA À FLOR DA PELE

Livro reúne 64 poetas de todo o Brasil e oferece 320 poesias que falam dos sentimentos nos mais variados estilos literários

O lançamento da antologia “Poemas à Flor da Pele”, que terá a presença dos poetas de Porto Alegre e cidades próximas, será no dia 5 de novembro, das 18h às 19h50min, no Memorial do Rio Grande do Sul, Rua Sete de Setembro, 1020, na Praça da Alfândega. Em formato pocket (10,7 cm por 15,2 cm), que é mais fácil de manusear e foi um sucesso na edição de 2008, o livro compila poemas dos integrantes da Associação Cultural Poemas à Flor da Pele, originada no Orkut, em 2006, hoje com mais de dois mil membros.

Mais de 10 poetas deverão estar presentes para a sessão de autógrafos, na 55ª Feira do Livro, seguido de coquetel, declamação de poesias e performance do ator Marcos Bahrone. Organizado pela administradora da Poemas, Soninha Porto, o livro foi lançado oficialmente durante o XVII Congresso Brasileiro de Poesias, em Bento Gonçalves, no início de outubro. Para Soninha, os poetas de todos os cantos do País, nas páginas da antologia, “compartilham generosos suas criações, onde se vê a paixão à flor da pele dos laboriosos”.

Nas 387 folhas do livro de capa colorida, o leitor encontrará poemas para crianças, adultos e adolescentes. O grande poeta contemporâneo, Afonso Estebanez Stael, membro da Academia Brasileira de Poesias, fez o prefácio da obra, disse que “Poemas à Flor da Pele constitui registro literário de inestimável valor cultural no âmbito da poesia atual. “A poesia de ‘Poemas à Flor da Pele’ é uma forma universal de reinvenção da vida”, escreveu.

O QUE: lançamento de livros com sessão de autógrafos
QUANDO: 5 de novembro
HORÁRIO: das 18h às 19h50min
ONDE: Memorial do Rio Grande do Sul
ENDEREÇO: Rua Sete de Setembro, 1020, antigo prédio dos Correios e Telégrafos
EVENTO: 55ª FEIRA DO LIVRO

Ponto Final (*)


Vem até a minha casa
Despojado
De qualquer temor
Eu te recebo com calma
Acomoda-te no sofá
Sossegado
Deixa passar o calor
Eu escutarei a tua alma

Brinca com o cachorro
Impertinente
Enquanto faço café
E sirvo com amanteigados
É preciso usar a palavra
Convincente
Como se fizesse cafuné
Nos teus cabelos cacheados

Nada mais temos a doar
É ponto final
De um romance colorido
E hoje totalmente desbotado
Não te desejo mais nada
Segue o sinal
Não precisa ficar abatido
Sei absorver um caso acabado

(*) márcia fernanda peçanha martins

Estratégia de saída (*)

Arranca de mim
este teu cheiro
este teu corpo
não te quero assim
tira da minha sala
este teu livro
este teu retrato
ajeita tudo na mala
esvazia o roupeiro
não deixa meia
leva as camisetas
retira-te inteiro
limpa o armarinho
da cozinha, do banheiro
não deixa vestígios
é o único caminho
beberei algumas doses
vagarei pela noite
aumentarei o Lexotan
mas nada de overdoses
basta a eternidade
que segui tuas vozes
respirei pela metade
e fui só infelicidade

(*) márcia fernanda peçanha martins

Primavera na minha vida (*)

A primavera, especialmente nos últimos anos, não bate mais à porta da minha humilde residência. De forma abusada e íntima, invade os aposentos cobertos e encasacados da minha alma e da minha vida. Como nova inquilina, ela expulsa cheia de razão a escuridão do inverno, o pó acumulado das janelas não abertas, o medo do frio lá fora. E vivemos, durante o seu tempo anual nesta parte do hemisfério, uma história de amor e encantamento, como deveriam ser todas as relações. Perfumadas pelo respeito, enfeitadas pelo colorido e duradouras o tempo necessário para florescer a sedução e a paixão.

Nem sempre permiti que esta estação entrasse com tanta tranquilidade nos meus dias. Até com as variações climáticas, desenvolvi uma certa rebeldia. É algo que me persegue. Na infância, recordo vagamente que não suportava muito bem a presença da primavera por razões explícitas de saúde. Alergicamente falando, a chamada estação das flores adoecia frequentemente a minha irmã mais velha com a sua asma e me debilitava com os ataques de rinite. Na adolescência, a primavera acenava com uma certa liberdade de horários de lazer e os ensaios de um corpo mais à mostra. Tudo regulado pelos pais, o que impedia o amor maior.

Na época da formação da Saudosa Maloca, nome carinhoso da turma da faculdade de Comunicação Social da PUCRS, a primavera trazia a promessa de festas e encontros dos maloqueiros. Muitas vezes, eventos planejados no pátio da Famecos, adornados pelo sol que nos esquentava e pela troca de olhares com os guris das Engenharias. E, finalmente, ao começar a vida profissional, inicia-se um flerte mais promissor com a primavera. Talvez pela escassez de momentos livres para aproveitar o sol, pela saudade de descascar laranja debaixo de uma árvore e de caminhar em volta da Redenção.

Depois, inexperiente, deixei que um inverno tempestuoso e úmido, com raios e dias fechados, espantasse, durante muitas estações, a primavera da minha vida. De nada adiantava as árvores florescerem, nem as flores embelezarem o interior de outras pessoas, nem os dias ficarem mais longos. Apesar do reflorescimento da flora e da fauna, meu coração estava congelado, alheio ao bater das asas dos pássaros e às pequenas borboletas brancas e amarelas que tomavam o espaço.

Mas, como já disse Cecília Meireles, é certo que a primavera chega. “É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da perpetuação”. E, reencontrei, definitivamente, a primavera, quando preparei meu ventre para hospedar a minha filha Gabriela. E, desde então, fiquei pronta para receber a estação. E vivemos harmonicamente. Passei a prestar atenção ao murmúrio dos passarinhos novos, ao azul do céu, ao movimento das árvores, ao cheiro das flores e os sentimentos que carregam com elas. E, assim como Cecília, aprendi com a primavera, a deixar-me cortar e voltar sempre inteira.
(*) márcia fernanda peçanha martins, publicado originalmente no coletiva.net

Caçador (*)

Acarinhei a noite
para deitar contigo
e me fartar de amor
Enlaçei num açoite
todo o meu desejo
como fosse uma flor
Foi só um pernoite
para brincar de paixão
e te fazer caçador

(*) márcia fernanda peçanha martins

As primaveras (*)

As janelas da minha vida
deixam entrar os perfumes
do cravo, da rosa, da violeta
e da encabulada margarida
com as pétalas dos ciúmes

Ilumina cedo a minha sala
um raio de sol abrangente
e invade todos meus aposentos
refletindo-se na mandala
a sua energia efervescente

Pede passagem a primavera
convidando meu corpo e alma
ao passeio e a abandonar o casulo
e encerrar de vez a espera
que me enlouqueceu a calma

(*) márcia fernanda peçanha martins

Sina de amor (*)

Mesmo que o sol
Nunca mais apareça
E tudo seja escuro
Ainda te amarei
Na festa de Natal
Não precisa promessa
Cartão ou presente
Ainda te amarei
Embaixo da chuva
Fugindo com pressa
Dos loucos na rua
Ainda te amarei
E se muito duvidares
Devolvo-te depressa
O anel e a gargantilha
E ainda te amarei
Daqui a muitos anos
Fixado na cabeça
Encontros e desencontros
Mas ainda te amarei


(*) márcia fernanda peçanha martins

O babado do You Tube (*)

A maior vergonha patriótica do Brasil que sobrevive e é feliz sempre foi a confusão que a grande maioria dos brasileiros faz quando necessita cantar o hino nacional. As margens plácidas do Ipiranga, que em 1822 já não se assustaram quando Dom Pedro I, gritou em brado retumbante, continuam calmas e apesar do tempo impiedoso, resistem à memória. Talvez nem tão despoluídas. E no começo da execução do hino nacional, todos entoam corretamente as primeiras estrofes. Até que muita gente movimenta apenas os lábios quando não sabe se é o Brasil, um sonho intenso, um raio vívido, ou o Brasil de amor eterno seja símbolo.

Nós, jovens há mais tempo, talvez de tanto ler a letra impressa do hino nacional nas contracapas dos cadernos, possamos dizer que erramos menos. Ah, tá bom! E os jogadores de futebol, todos enfileirados, nas partidas da Seleção, que só mexem o maxilar ou desviam da câmera na hora fatal? Não adianta. Sempre há um tropeço. A letra do hino, de autoria de Joaquim Osório Duque Estrada (Márcia também é cultura!), é linda, resplandecente e ostenta uma lista de palavras, cujo significado nem todos conhecem.

Tempo para aprender a letra, debulhar o seu significado, e saber onde é um raio vívido ou de amor eterno, todos brasileiros com mais de seis ou sete anos, tiveram e ainda tem. Desde 1º de setembro de 1971, quando se tornou oficial, é executado em sessões cívicas, eventos esportivos e demais cerimônias de cunho patriótico. É um hino fúlgido, formoso e idolatrado. Nem todos estas qualidades, no entanto, foram suficientes para que a cantora Vanusa, que gravou sucessos do desaparecido Belchior, na década de 70, um dos ícones da Jovem Guarda, errasse, da forma mais atrapalhada do mundo, a letra do hino.

Assim como Vanusa liderava o hit na década de 70, com suas músicas melosas, a versão desastrada que fez para o hino nacional, recheada de gafes, durante um evento promovido pela Assembléia Legislativa de São Paulo, em março, é o “babado” do momento na internet. No You Tube, não só ele tem sido um dos mais acessados, como já propiciou brincadeiras mostrando o professor da cantora, que erra mais do que a musa loira, e na rede, a explicação dela para os pequenos errinhos, atribuindo a uma automedicação para labirintite, beiram o limite do bom senso.

Se alguém é contratado para uma aparição pública e não se sente em condições de manter a apresentação, deve evitar o fiasco. Ao contrário, Vanusa, segundo notícia no portal Terra, link Divertimento, diz que está muito triste com a “repercução” do caso e que, em 40 anos de carreira, nunca passou por situação semelhante. Para ela, trocar, na quinta estrofe do hino, "és belo, és forte, impávido colosso", pela estrofe anterior "és belo, és forte, és risonho e límpido", foi um erro que não deveria comprometer a apresentação toda. Completamente fora do ritmo, ela insiste e segue trocando estrofes.

Depois disso, achar que o Brasil, um sonho intenso, um raio vívido, de amor e esperança à terra desce, pode ter o mesmo significado que de amor eterno seja símbolo o lábaro que ostentas estrelado, é somente um detalhe. Eu erro, tu erras, ele erra. Mas, alguém contratado pelo portal Terra escrever repercução desta maneira, exigiria uma repercussão maior. E depois, não querem diploma.
(*) márcia fernanda peçanha martins

Entrega (*)



A mão escorrega
provoca
o prazer.
O tremor não nega
a entrega
a se fazer

(*) márcia fernanda peçanha martins

Lohana nos meus braços (*)

Hoje, não vou escrever sobre dissabores e pequenas mágoas. Não! Disciplinarei meus dedos para que as teclas não se sintam donas de si e falem do diploma de jornalista, roubado pelos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Nem dos seguidos atos de truculência cometidos pela Brigada Militar no novo jeito de governar. Nem da covardia daqueles que escondem o nome do assassino do sem-terra, morto na desocupação da Fazenda Southall, no dia 21 de agosto, em São Gabriel. Nada de salário menor do que o mês, de preocupações com a minha filha adolescente, do meu time que não ganha fora de casa.
Para não dizer que não falo de flores, divido com você, meu leitor nauta, neste espaço, o perfume de rosas, cravos, jasmins e outros, que já invadem o meu apartamento para receber a primavera. E sinto, antecipadamente, os cheiros das flores, ainda imaginárias, mas que já exalam gotas de ternura e respingam harmonia na minha vida. Neste cenário de quase primavera, mas sob um verão de 30 e tantos graus no domingo à tarde, reunindo a família para comemorar os 24 anos do meu sobrinho e afilhado Rafael, trabalhador, estudante, que se vira por conta própria, cheio de projetos, que recebi um novo estímulo de vida.
Após o almoço, no pit stop que fizemos na casa da minha mãe para um cafezinho, praticamente todos já haviam segurado a pequena Lohana, brindando também os seus quatro meses naquele dia. Pois, a Lohana, filha da Camila, irmã do Rafael, que seria minha sobrinha-neta, não fosse eu adotá-la como neta, ainda não experimentara meu colo naquele dia. Chegara, portanto, a vez da vó Márcia. E com a Lohana acomodando seu pequeno rosto bochechudo no meu ombro, com os olhinhos acompanhando qualquer quadro, enfeite e móbile ao seu alcance, iniciei o trajeto de um lado a outro do corredor, o ir e vir entre os quartos.
Com a mesma desafinação que fazia desmaiar de sono e enjoo os meus irmãos menores, o Rafael e a Camila, e a filha Gabriela, entoei a velha canção de ninar. Passados quase 15 anos do nascimento da Gabriela, tive a impressão de que nunca deixei de cantarolar “se essa rua fosse minha, eu mandava ladrilhar com pedrinhas de brilhante, só prá ver meu bem passar”. De trás para frente, forçando o refrão, pulando estrofes, embalei Lohana nos meus braços. Abaixando o tom de voz, naquele estágio que só as mães alcançam e indica a rendição do rebento. E dentro do bosque que se chama solidão, as palavras calando, sumindo....
Assim, ao chegar o entardecer, acalantando a filha de minha sobrinha, deixei o pranto correr, e sussurando pedi que o mundo fique melhor, que todos possam ter educação, habitação e saúde, que ela conheça um Planeta mais verde, um País mais justo e um universo mais solidário. Exatamente como eu fazia com a mãe de Lohana, a Camila no colo, a minha pequenininha que hoje é uma mãe de família. Um filme com rodízio de personagens. Não sei se contaminada pelo cheiro inesquecível de inocência que Lohana emana ou se pelo aroma imaginário da primavera, passei o resto da semana em estado de graça.

Nada se compara ao milagre da vida. Nada é tão revigorante como rever o passado assim tão nítido. Nada como um pedaço de ser no nosso colo para nos fazer esquecer da inflação, da violência, do emprego, da conta e de todo o mundo lá fora.
(*) márcia fernanda peçanha martins

Poesia na ponta do lápis (*)(**)


Uma poesia ganha forma
com a dança de um lápis
sobre uma folha de papel.
Adapta-se a toda reforma
com espírito de aprendiz
aglutina rima de beleléu.
Escreve versos sem norma
com azul escuro ou aniz
mas capricha no tom pastel.
Depois deste desembaraço,
logo é a nova convidada
do proprietário do espaço.
Promete vir de entrelaço
encabulada e apadrinhada
pelos Poetas Del Mundo


(*) márcia fernanda peçanha martins
(**) escrito especialmente para o 2º Encontro dos Poetas Del Mundo no Lápis Café