Blog da Marcinha

Ao postar emoções, medos, sensações e utopias aqui, através de fotos, pensamentos, crônicas, artigos e poesias, entrego a vocês um pedaço enorme do meu coração, por vezes ferido, outras alerta ou contente. Use com moderação!

03 setembro, 2018

Não se calem, metam a colher, é pela vida das mulheres (*) (**)



A lei que inaugurou um capítulo fundamental e necessário no Brasil para punir a violência contra as mulheres completou, na terça-feira, 7 de agosto, 12 anos. Maria da Penha, a farmacêutica natural do Ceará, que deu nome à lei (11.340), sofreu violência doméstica durante 23 anos. Até que em 1983, o marido tentou, por duas vezes, assassiná-la. Na tentativa com arma de fogo, ela ficou paraplégica. Na segunda, ele tentou eletrocussão e afogamento. Foi quando Maria resolveu dar um basta. Cheia de coragem, denunciou o companheiro, saiu de casa amparada por uma ordem judicial e iniciou uma longa batalha para criminalizar seu marido.


Mesmo com a Lei Maria da Penha, sancionada em 2006, que é um marco na proteção dos direitos femininos por punir agressões cometidas contra as mulheres no ambiente doméstico e familiar, os números registrados de violência ainda assustam e preocupam. O mapa do feminicídio no Brasil, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), aponta que 43,7 mil mulheres foram assassinadas no País entre 2000 a 2010 por questão de gênero. Deste número, 40% foram mortas dentro de suas próprias casas pelos seus companheiros ou ex-companheiros. Na maioria dos casos, os motivos apontados foram ciúmes ou inconformidade com o fim dos relacionamentos.


Muitas destas mortes poderiam ter sido evitadas. Se as mulheres não tivessem tanto medo de denunciar. Se o receio da represália do agressor não fosse tão predominante. Se muitas das vítimas não dependessem financeiramente do suporte do companheiro. Se, nas poucas vezes em que tiveram coragem de repartir a dor com algum familiar, este tivesse lhe aconselhado a procurar ajuda imediata. E, principalmente, se a sociedade não calasse tanto ao ouvir os gritos das mulheres agredidas. Se não se omitisse quando percebe que um casal vizinho está brigando e que existe violência. Se não fechasse os olhos quando percebesse os hematomas nas mulheres que cruzam pelos corredores dos prédios.


É impossível acreditar que sempre existe uma escada bem no meio do caminho para justificar os roxos pelos corpos. Ou um tapete que provocou o tombo e quebrou o braço da amiga. Ou o piso molhado que motivou o escorregão e a queda da vizinha no chão. Ou ainda aquela maldita porta do roupeiro deixada aberta que pintou o olho da moça de preto. E o cabo da panela muito quente que gerou a queimadura no braço. Desculpas, desculpas e mais desculpas. E atrás de todas elas, mulheres agredidas diariamente, moças que ostentam hematomas nas pernas, nos braços, nas costas, bocas feridas, arranhões espalhados e marcas de violência de gênero pela vida toda.


Porque nem a Lei Maria da Penha e a do feminicídio, de 2015, foram ainda suficientes para calar a violência contra as mulheres. Todos os dias, 13 mulheres são assassinadas no Brasil pela questão de gênero. Por isso, é urgente estimular que sejam feitas denúncias. É necessário explicar para as mulheres que elas não podem continuar sendo agredidas. É imprescindível falar que existem leis que as protegem. Que funcionam nas capitais Delegacias Especializadas para atendê-las. As mulheres precisam saber que não são as culpadas, que são as vítimas. Que quando dizem não estão exatamente dizendo não. Que uma roupa sexy não é passaporte para o assédio. Que o respeito precisa e deve ser exercido.


E para ajudar estas mulheres a apanharem menos, a evitarem agressões, a darem um basta definitivo nesta violência cruel, covarde, desumana e de gênero, é obrigatório que estejamos atentos a qualquer sinal, que não fiquemos omissos, que não calemos a nossa voz ao perceber uma briga próxima, que todos metem sim a colher em briga de marido e mulher. É pela vida das mulheres, das nossas vizinhas, das nossas colegas, das nossas amigas, das nossas conhecidas, das nossas filhas, netas, bisnetas. É pela dignidade e vida de todas nós.

(*) márcia fernanda peçanha martins
(**) publicado originalmente no site www.coletiva.net

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21 novembro, 2017

Poemas à flor da pele (*)

Trago hoje no meu corpo os sons de
rimas de amores, encontros e fantasias.
Mas não só isto. Revelo marcas na pele
como se fossem tatuagens ou alegorias
do que já vivi, viverei e até me expele
para a possibilidade de novo cenário.


Nas emoções, ainda exponho cicatrizes
dos sentimentos, partidas e desarmonias.
Tudo ainda sangra. Tudo é muito recente.
Reflexos de caminhos, acertos e deslizes.
Fotografias em branco e preto e em matizes
que acentuam os meus sinais à flor da pele.


Ás vezes, sou apenas um corpo sem emoção,
sem reflexo, sem vida, quase sem respirar,
outras sou apenas uma pele sem recheio,
quase desidratada, quase a se desmanchar.
Mas sempre e em qualquer situação,
sou toda, inteira, indiscutível, dos pés à cabeça
Mero esboço de um poema à flor da pele.

(*) márcia fernanda peçanha martins

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18 novembro, 2017

Nos lados da minha independência (*)


Nublou a manhã de quinta-feira
aqui pelos lados da Independência.
Ventos sacodem folhas sem simetria
e eu busco recuperar a inconsistência.

O cinza do céu pinta tudo de indecisão,
e uma brisa mesclada de outono e primavera
deixa oscilar os batimentos do coração,
na doce e remota sensação da tua espera.

Não sei se foram os ares da noite interrompida,
ou pequenos trovões que sugeriam o acolhimento,
mas sonhei com tuas mãos afagando minha vida

e amanheci refeita para tudo que se apresentará,
porque a imagem do teu beijo, teu afago e teu abraço
são os fermentos capazes de matar todo e qualquer cansaço.



(*) márcia fernanda peçanha martins

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05 novembro, 2017

Emoções na janela (*)


Pelos vidros semiabertos
espiam insensatos e corroídos
sentimentos prontos a entrar
para habitar meus desertos.
Não os convido a passar
e pressionar sinais doloridos.
Que invadam outros lares
e encontrem novos desafetos.
Nas minhas dores e emoções,
nas lembranças do que não fui
e na saudade do que vivi,
definitivamente, mando eu.



(*) Márcia Fernanda Peçanha Martins

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29 setembro, 2017

Da paixão e do amor (*)


Ao simples e despretensioso toque

da tua mão deslizando sobre meu corpo
e o desejo inesperadamente explode
e a paixão incendeia e me sacode
transformando o racional em irracional.


E quando teus dedos encaracolam,

se afofam e se perdem nos meus cabelos,
um tremor perpassa meus sentidos,
e através de movimentos consentidos,
iniciamos um jogo de entregas.


Eu te permito então transitar pela

minha rotina e compartilhar as emoções.
Eu te autorizo assim a caminhar pelos
meus dias e dividir as minhas ilusões.
Eu te concedo meu respirar, meu ar,
meus minutos, minha vida e meu amar.

(*) by Marcinha

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13 setembro, 2017

Soneto embriagado (*)


Na borda do cálice, teu cheiro
mistura-se ao aroma do vinho.
Levada por um ato derradeiro,
retomo embriagada o caminho,

onde sigo teu beijo prisioneiro
e me entorpeço com o carinho.
O trajeto é por vezes traiçoeiro:
sem barulho, sem murmurinho.

E da ressaca, quando desperto,
não estou impregnada do gosto
cabernet amanhecido da bebida.

Não só o coração trago coberto,
mas tenho meu corpo predisposto
ao teu perfume na minha vida.




(*) márcia fernanda peçanha martins

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29 julho, 2017

Das entregas (*)



A tua barba mal feita
roça maliciosamente o meu colo
e vai abrindo possibilidades
de entrega que até me enrolo
no teu corpo repleto de ternura
e cheirando nas cavidades.
E quando me empurras na cama
somem os medos e surge a candura
capaz de fazer esquecer o passado
e acender o prazer que me inflama.
As pernas se entrelaçam num momento
e só nos despertam ao final de cada ato.
E daí, é manhā de sol, café no fogo,
perfume de homem e mulher, juntos,
que se espalha pela casa, pele, vida e narinas!


(*) márcia fernanda peçanha martins

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