Blog da Marcinha

Ao postar emoções, medos, sensações e utopias aqui, através de fotos, pensamentos, crônicas, artigos e poesias, entrego a vocês um pedaço enorme do meu coração, por vezes ferido, outras alerta ou contente. Use com moderação!

13 setembro, 2017

Soneto embriagado (*)


Na borda do cálice, teu cheiro
mistura-se ao aroma do vinho.
Levada por um ato derradeiro,
retomo embriagada o caminho,

onde sigo teu beijo prisioneiro
e me entorpeço com o carinho.
O trajeto é por vezes traiçoeiro:
sem barulho, sem murmurinho.

E da ressaca, quando desperto,
não estou impregnada do gosto
cabernet amanhecido da bebida.

Não só o coração trago coberto,
mas tenho meu corpo predisposto
ao teu perfume na minha vida.




(*) márcia fernanda peçanha martins

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29 julho, 2017

Das entregas (*)



A tua barba mal feita
roça maliciosamente o meu colo
e vai abrindo possibilidades
de entrega que até me enrolo
no teu corpo repleto de ternura
e cheirando nas cavidades.
E quando me empurras na cama
somem os medos e surge a candura
capaz de fazer esquecer o passado
e acender o prazer que me inflama.
As pernas se entrelaçam num momento
e só nos despertam ao final de cada ato.
E daí, é manhā de sol, café no fogo,
perfume de homem e mulher, juntos,
que se espalha pela casa, pele, vida e narinas!


(*) márcia fernanda peçanha martins

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27 julho, 2017

Poeminha (*)


Repousa o desassossego no canto da sala
e deita teu cansaço no braço do sofá
que prometo encaracolar teus problemas
e ouvir tudo o que te preocupa e te abala.

Se tiver dor de cabeça, um analgésico,
se apresentar febre, chá de limão com mel;
Mas para os males do coração, nem remédio
de tarja preta com assinatura de médico.

E se nada adiantar para amenizar tua dor,
e se nem a minha dedicação te tranquilizar,
ou mesmo o meu abrigo te aconchegar,

coloca um CD de MPB, toma um gole de vinho,
não desanima e nem pula os capítulos,
recomeça a tua vida e muda os titulos


(*) márcia fernanda peçanha martins

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25 julho, 2017

Início de romance (*)





Um corpo encostado no meu,
um beijo colado no meu lábio,
uma perna trançada na minha coxa
e num instante o mundo tremeu.
Pensamentos em intercâmbio
e nasce uma relação hetedoroxa.
Teu abraço logo correspondeu
e descansou sobre a blusa roxa.
Dois corações que se entrelaçam
e dois corpos que se aterrissam
no romance recém inaugurado.

(*) márcia fernanda peçanha martins

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Os carinhos e lambidas do cão mais dengoso do mundo (*) (**)


O despertar da cama bem cedinho na manhã de terça-feira, com o objetivo de cumprir compromisso médico mensal, foi, como sempre faço, acompanhado de um bom dia animado para o cão da raça shih tzu, que desde 2007 habita o pequeno apartamento comigo e a filha Gabriela. O canino Dalai esparramado no sofá da sala adora o chamego, se torce todo desarrumando a manta que encobre o móvel e deixa escapar uma mistura de grunhido e latido. É a forma que o cachorro encontra, invariavelmente, há 10 anos de mostrar sua alegria com a atenção recebida, de demonstrar felicidade por ser lembrado sempre, de explicar que adora ser paparicado.


A visita ao médico não demora muito e percebo que preciso retornar para o apartamento a fim de buscar o cartão do banco que havia retirado da bolsa um dia antes. Menos de duas horas da minha primeira saída e quando a chave faz barulho para abrir a fechadura da casa, o cachorro começa a latir esfuziante e me recebe como se eu tivesse ficado mais de 30 dias ausente. Imediatamente, ele sobe no braço do sofá, na sua posição preferida, para esperar os carinhos que habitualmente lhe dispenso quando chego da rua. Mas a alegria do cão é tanta que eu penso mesmo que me ausentei por um longo tempo, para motivar assim tamanha saudade.


Mais tarde, ao voltar novamente da rua, sou outra vez recebida de uma maneira como se tivesse ficado um tempo inexplicável fora. Meses e meses de ausência. O peludo corre de um lado para o outro da casa, parece ligado numa tomada, pega todos os brinquedos que enfeitam o seu puff de estimação e espalha no chão da sala para que eu jogue e o estimule a pegá-los. Apesar de estar com o tempo programado para realizar diversas outras atividades na rua, decido dispensar alguns minutos para retribuir a euforia do Dalai e deixar sua energia ser gasta um pouco.


Depois de encerrar os compromissos na rua, a terça-feira chuvosa e com cor cinzenta, me convida a fazer preguiça esticada no sofá da sala, lendo, ouvindo música, vendo filmes na sessão da tarde. Pois é só me acomodar que o canino se ajeita perto do meu corpo, se aninha e se esparrama ao meu lado para me acompanhar no ócio. E não tem jeito do cachorro sair e me abandonar. Pode ter barulho no corredor, pode o celular dar sinal de vida, pode eu me virar mais de uma vez para mudar de posição que ele não se mexe. É meu companheiro. Meu mais fiel aliado. Meu mais carinhoso cão. De todos os que eu já tive. E foram muitos. De diversas raças e vira-latas. Nos mais diversos lugares onde já morei.


Dalai é, sem dúvida, o cão mais que carinhoso e afetuoso que conheço. Dalai se constitui, com a maior convicção, no companheiro mais leal que existe no habitat animal. Dalai é, com certeza, o canino mais devotado as suas donas (eu e a filha Gabriela fazemos questão de dividir esta parceria). Confesso que não imagino viver sem os carinhos e as lambidas do cão mais dengoso do mundo.




(*) márcia fernanda peçanha martins
(**) publicado originalmente no site www.coletiva.net


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A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa (*) (**)


Não sei se vocês já perceberam esta situação. Não sei se você, leitor ou leitora, assíduo (a) ou esporádico (a), teve a consciência deste fato. Não sei se colheu a mesma impressão assustadora que a minha, mas vou, aqui neste espaço, compartilhar com vocês a sensação inesperada e preocupante que tive. Assim, de repente, não mais que de repente, eu descobri que metade do ano passou. Do nada. Sem cerimônia. Seis meses deste ano de 2017 já escapuliram. Não existem mais. Não poderemos mais partilhar vivências neste primeiro semestre. Pronto, serei mais didática: nunca mais teremos janeiro, fevereiro, março, abril, maio e junho de 2017. Não poderemos mais viver esses meses neste ano. 


Na terça-feira, 11 de julho, ao pagar uma conta no caixa eletrônico, ao digitar a data de vencimento, notei que entrei, definitivamente e irremediavelmente, na segunda metade do ano. E passei a pensar que, mais do que nunca, é preciso correr para cumprir com todos os planos que fiz para 2017. Lamento informar, mas percebi que tenho que correr muito e tal qual o coelho da Alice no País das Maravilhas a partir de agora tenho muita pressa, porque é tarde, ai meu Deus, é tarde, tarde. Tenho apenas cinco meses e uns 19 dias antes de findar o exercício de 2017 para amar quem não amei, ser mais carinhosa com os familiares, paciente com a minha filha amada, aumentar as minhas doses de perdão, dobrar meus momentos de generosidade e desculpar realmente as pequenas falhas.

Em menos de seis meses, devo cumprir com meus planejamentos de vida feitos na virada de 2016 para 2017. Uma das metas era procurar mais os amigos e amigas. Para evitar depois o sofrimento de distâncias doloridas que só tendem a aumentar quando o amigo ou amigo não pode estar mais com a gente. E a falta de dindin para realizar tais encontros não pode ser mais a desculpa. Então, nos próximos meses, a Dona Márcia vai precisar otimizar o seu tempo para organizar muvucas e rever estes amigos e amigas que guarda com imenso carinho no lado esquerdo do peito. Como sempre, a minha filha aparece nas minhas metas de melhorar as minhas ações nos anos que se iniciam. Creio que nos primeiros meses de 2017, os encontros entre nós foram maiores que os desencontros, mas tenho ainda, menos de 160 dias para aperfeiçoar nossos afetos e ser menos fiscalizadora, mais compreensiva, ignorar seus pequenos erros e acarinhar mais.

Algumas das metas foram, em parte, realizadas. Mas o calendário apontando para 11 de julho me mostrou que ainda tenho tempo hábil para ser uma pessoa melhor, intensificando o que não fiz e correndo para agir e fazer o que prometi. Embora tenha aumentado o meu tempo de leitura, é necessário ler mais. Imediatamente, vou separar alguns títulos que acumulam pó nas prateleiras. Dedicar mais tempo à audição de música, porque isto é essencial para o corpo e alma. Preciso ser mais calma. Exercitar em doses maiores a paciência. Ser menos ansiosa. Acreditar somente naquilo que depende única e exclusivamente de mim. E, principalmente, para não ter tanta decepção, ter em mente que as pessoas só podem doar o que realmente tem. Isto é, não esperar muito dos outros.

E, ao tomar consciência, mesmo que sem querer, de que metade do ano se passou, lembro com carinho do que escreveu o nosso poeta Mario Quintana no poema intitulado “O Tempo”, em que ele fala na efemeridade da rotina e diz que a vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa. “Quando se vê, já são seis horas, quando se vê já é sexta-feira, quando se vê já é Natal, quando se vê já terminou o ano, quando se vê já perdemos o amor da nossa vida, quando se vê passaram 50 anos”. Por isso, prossegue o poeta, é tarde demais para ser reprovado. Foi exatamente o que senti ao me dar conta de que o tempo simplesmente disparou em 2017.

Como ensinou Quintana, se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio. “Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas. Seguraria o amor que está à minha frente e diria que eu o amo”. Simples não é? Porque gostamos tanto de complicar? Ainda dá tempo. “Não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo. Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz. A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará”.


(*) márcia fernanda peçanha martins
(**) publicado originalmente no site www.coletiva.net


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24 julho, 2017

Ventos do mundo (*)



Vento sopra no meu pescoço
e permite entrar um arrepio
que mistura rajadas de frio
e o medo de um fim insosso.
O vento ocupa parte da mente
e afasta resquícios de vontade
de desenhar riscos de felicidade
ou correr pelo campo livremente.
Vento, vento, ventania infame,
carrega os pequeninhos seres,
indefesos, leves, puros e perenes
para perto de onde o amor clame.


Vento, vento, ventania do mundo,
cale de imediato todos os contrários
e reúna adversários e autoritários
para um acalorado debate profundo.



(*) márcia fernanda peçanha martins

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16 maio, 2017

Ponto Final (*)



Vem até a minha casa 
despojado
de qualquer temor.
Eu te recebo com calma
acomoda-te no sofá
sossegado.
Deixa passar o calor
eu escutarei a tua alma.

Brinca com o cachorro
impertinente
enquanto faço café
e sirvo com amanteigados.
É preciso usar a palavra
convincente
como se fizesse cafuné
nos teus cabelos cacheados.

Nada mais temos a doar.
é ponto final
de um romance colorido
e hoje totalmente desbotado.
Não te desejo mais nada
segue o sinal.
Não precisa ficar abatido
Sei absorver um caso acabado


(*) márcia fernanda peçanha martins

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15 janeiro, 2017

Cuidado, há um Sidnei perto de nós (*)(**)

Cuidado, habita um Sidnei no seu edifício, no apartamento do andar de cima. Cuidado, trabalha um Sidnei na repartição, na seção ao lado da sua e cruza diariamente com as mulheres do local. Cuidado, um Sidnei frequenta as festas de aniversário, mesmo as familiares (ele pode ser um convidado e não necessariamente pertencer ao círculo mais íntimo) e parece até inofensivo. Cuidado, um Sidnei foi visto nas aulas da faculdade de sua filha. Cuidado, existe um Sidnei dentro de muitos lugares conhecidos e destila suas piadas infames, suas impressões nojentas e apresenta, com insistência, suas opiniões machistas e misóginas.

Tipos, como o Sidnei, que matou 12 pessoas da mesma família em uma festa de réveillon, em Campinas (São Paulo), inclusive a sua ex-mulher, Isamara Fillier, 41 anos, existem em todos os cantos do Brasil. São mais comuns do que se poderia imaginar. Não se trata de um personagem fictício endoidecido ou de uma minissérie passada no horário nobre da televisão. Homens, como o Sidnei ainda proliferam. Eles dizem, mesmo que em tom de brincadeira (mas no fundo não é brincadeira), que lugar de mulher é pilotando fogão. Disparam que menina não brinca de luta, não grita e não diz palavrão. Duvidam da inteligência de uma mulher se ela é bonita. É o marido que grita em alto e bom som que quem manda ali é ele.

Portanto, muito cuidado. Há um Sidnei perto de todas nós matando mulheres e propagando o machismo, o preconceito e a discriminação. Em pleno 2017, ainda vivemos sob o medo da violência de gênero. Somamos conquistas importantes, mas continuamos a conviver com uma sociedade marcada pelo machismo e misógina. De um modo geral, as mulheres ainda são culpadas pela violência cometida contra elas. São estupradas e a culpa recai sobre elas porque usaram roupas curtas. São agredidas e culpadas porque provocaram. Se a violência é doméstica, o motivo é porque não escolheram corretamente o marido.

Todo o dia, mulheres são assassinadas por homens e a culpa continua sendo delas. Sinceramente, sonhei várias noites que estes crimes não aconteceriam mais. Hoje, ando sonhando muitas noites com o momento em que os verdadeiros culpados, os estupradores, os espancadores, os assassinos, serão realmente considerados culpados pela maioria esmagadora da população e não somente pelas feministas.
E para quem acreditou, como o assassino Sidnei deixou escrito na carta, que o feminismo foi a sua motivação para cometer o crime, é preciso reforçar que o feminismo não mata. Ele não entra na casa de uma mulher e mata 12 pessoas (nove mulheres). Ele não estupra. Ela não violenta. Ela não assassina. O que mata, estupra, agride, violenta e termina com a vida das mulheres é a misoginia, o preconceito, a discriminação, o machismo e a dificuldade que alguns homens têm de aceitar que as mulheres estão alcançando espaços iguais na sociedade.
O crime cometido pelo Sidnei de Campinas é um feminicídio. Está previsto na legislação desde a entrada em vigor da Lei nº 13.104/2015, que alterou o artigo 121 do Código Penal para prever o feminicídio como circunstância qualificadora do crime de homicídio. Assim, o assassinato de uma mulher cometido por razões da condição de sexo feminino, isto é, quando o crime envolve: “violência doméstica e familiar e/ou menosprezo ou discriminação à condição de mulher”.

(*) márcia fernanda peçanha martins
(**) publicado originalmente no site www.coletiva.net